quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Poema RIO BEBERIBE

O rio Beberibe hoje / Foto: Fábio Torres.
Nos anos de 1940
Entre o Recife e Olinda
Do capinzal ao manguezal
Da nascente à foz
O rio das nossas avós
O rio da minha mãe menina
Da minha mãe tão moça
Da minha mãe tão linda
Das duas cidades belas.
Rio fértil
Rio sinuoso
Rio mulher
Rio das marias
Rio das brisas
Rio das campinas
Dos matagais
Dos varais de roupa
Das lavadeiras
Das cantadeiras
Do gado no pasto
Das garças vaqueiras.
Rio estreito
Rio largo
Da ponte de madeira
Dos barcos a remo
Travessias a nado
Rio das brincadeiras.
Rio moço
Rio velho
Rio manso
Sem corredeiras
Rio das hortas
De inhame e macaxeira.
Rio do barro
Das olarias
Rio das patas chocas
Das galinhas e galos
Das cantorias
Rio das cabras
Das panelas
Dos ovos
Do leite
Rio das vacas
Das vacarias.
Rio das chuvas
Das águas cheias
Das águas rolantes
Das águas turvas
Da boca grande
Rio do estio.
Rio dos índios
Rio dos peixinhos
Do sítio novo
Da aguazinha
Das manhãs e das tardes
Rio dos bandos de pássaros
Rio dos passarinhos.
Rio das cores e sons
Rio das jandaias barulhentas
Dos papagaios faladores
Das corujas agourentas
Rio dos papa-capins
Dos canários-da-terra
Anuns e socós
Sabiás e rolinhas
Gaviões e bem-te-vis
Viuvinhas e beija-flores
Curiós e andorinhas.
Rio dos guaiamuns
Escondidos nas tocas
Explorando as margens
Parados ao sol
Brilhando à luz
Rio das paragens
De todos os bichos
Dos bichos azuis.
Rio do tempo
Tempo dos trens
Das maxambombas
Tempo de comida farta
De comida boa
Em que o rato
mamava na gata
E a gente sorria a toa.
Rio dos cajueiros
Rio dos pés de manga
Dos pés de coco
Pés de cana
Pés de banana
Pés descalços
Pés na grama
Pés na água
Rio onde fazia gosto
meter os pés na lama.
Rio da noite escura
Dos sapos
Dos grilos
Das cobras
Rio dos perigos
Das aventuras
Das descobertas
Dos segredos
Rio dos namorados
No êxtase
a se embolar
Aos beijos e abraços
No meio do mato
Rio dos corpos suados
Rio dos corpos feridos
Rio dos corpos molhados.
Oh, esse rio
Volta pra mim
Volta pra mainha
Mata a saudade dela
E a curiosidade minha.
Rio de dezembro
Rio do verão
Rio noturno
Sob a estrela d’alva
Sob as três marias
Sob a lua nova
De águas claras
De águas mornas
De águas frias
Vem de novo banhar
As meninas de trança
As mamães de anagua
As vovós com vergonha
E os bebês de fralda
nos braços das madrinhas.
Volta no natal
Volta na lua cheia
Cheio de vida
De água de beber
De água limpinha
De camarões e raias
De tartarugas e plantinhas
Com teu leito cheio
De pedras roladas
De areias lavadas
De areias branquinhas.
Cheio de histórias
A história tua
As estórias minhas
Do Recife assombrado
Dos caminhos pra Olinda
Dos carnavais do passado.
Oh, rio das infâncias
Rio amigo
Rio das amizades
Rio das crianças
Das pipas no céu
Dos meninos felizes
Correndo no chão
Sonhando voar
Sonhando numa
casa na árvore morar
Rio dos meninos sem medo
Rio da felicidade que viria
Rio das favelas
que ainda não havia.
Volta a ser fundo, rio
A ser raso
A ser belo
A ser límpido
Transparente
Volta, rio de outrora
De antigamente
Que aqui jaz
Rio fantasma
Hoje rio tão feio
Rio tão sujo
Rio tão podre
Rio esgoto
Rio lixo
Rio crosta
Rio fétido
Rio fábrica
Rio cemitério
Rio morto
Rio homem.
Ontem rio de tudo,
rio de todos,
rio Beberibe
Hoje não mais.

E minha mainha...
... tão bela, tão tristinha.

(Fábio Torres).

Um comentário:

  1. Realmente é triste vê um rio com tanta história, virar um canal, uma fossa a céu aberto. Uma vergonha para o governo do Estado e as pessoas que jogam seus excrementos no pobre rio.

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