sábado, 5 de novembro de 2011

Poema MARTIN LUTHER KING

Martin Luther King / Fonte: Google Imagens.
Um tiro no espaço
A bíblia no chão
Um corpo sem vida
A multidão se amortalha
E a alma?
É de um Rei
Vida longa a Martin Luther King Jr.
Vida longa ao Rei.

... E sei que um dia
seremos reis também
Um dia a minha... a tua alma...
... será a de um rei além
Muito além de cidades e jazidas
Reis de amor... liberdade...
Tal qual o Grande Rei Martin
Não reis esquecidos em necrópoles
esquecidas sob os desertos esquecidos.

E quando o fim da tarde chegar
A luz do ocaso brilhar
Morrer de amor
Depois de tanto viver...
... de amor.

(Fábio Torres).

Poema A CASA

Fonte: Google Imagens.
Durante 7 anos
De segunda a sábado
De manhã, às 7
Eu no Km 7,
A 7 mil léguas do mar
Na estação do trem
que apitava e saía,
pontualmente,
às sete e sete
Curioso horário
Estranhas casas
Não, não eram sete
Eram duas
Lado a lado
Exatamente iguais
... Ou será que não?
Caberiam, então,
ao jogo dos 7 erros?

Ao longo de sete anos da minha vida,
a máquina preta
esfumaça o ar da manhã fria
E soando o maravilhoso apito,
parte na cadência dos sons
da mecânica orquestral
Puxando os vagões lotados
de gente, de tristeza, de alegria
A locomotiva sobre os trilhos
da linha ocidental, a primeira ferrovia,
desce a serra, leva-nos ao longe,
aos sonhos, à vida, avançando lenta
E da janela, da cortina de vapor,
eu, atento, as via
Na elevação após o rio magro e a planície,
distanciadas da cidade pobre e modorrenta,
entre as árvores antigas,
contemporâneas suas,
semeadas no século dezenove,
por volta de 1860.

Na janela, no vapor, meu rosto,
meus sentidos, parados, fascinados,
fixados naquela abstrata cenografia
Até a escuridão do túnel
apagá-la da minha visão
Mas não dos meus pensamentos verneanos
Seriam duas casas de outro mundo?
Quem ali nasceu? Quem ali nascera?
Quem ali viveu? Quem ali vivera?
Quem ali morreu? Quem ali morrera?
Havia algum herdeiro... ou herdeira?
Nas conversas de trem, procurei saber
Com os velhos, com os sãos, com os sábios
Mas ninguém sabia
Somente que eram assombradas:
antros de seres horrendos, nauseabundos,
de corpos amorfos tomados pelo antraz
e dos espíritos notívagos e bestiais
das famílias destruídas pelos flagelos
de doenças degenerativas e terminais,
pelas discórdias, sofrimento, infelicidade, agonia.

Para eles, os simplistas, os simplórios,
a história das casas era vazia,
como vazias eram elas, há décadas,
fechadas, sem luz, esquecidas, sufocadas
Era o medo do desconhecido,
o pavor que assolava o povo daquele lugarejo
Não raros foram os domingos
em que procurei decifrá-las
Sonhando, absorto, viajando
nos sentimentos e enlevos
que aquelas duas imensas casas
só em mim despertavam... estimulavam
Eu sozinho, irrequieto, resoluto,
percorrendo a gare deserta,
buscando os melhores pontos de observação,
com a luneta de bronze do meu avô materno
nas mãos, aos olhos, à mente
Através das lentes arranhadas e embaçadas,
o remoto explorador, apesar dos caules e folhagens
e da bruma que normalmente as envolvia,
pacientemente, persistentemente,
tal qual Paracelso e sua alquimia,
esquadrinava os invólucros murais,
desvelando o fantástico da arquitetura
que magistralmente as definia.

... E, certa vez, finalmente,
no último dos sete anos,
no feriado do dia 7,
numa manhã quente, arvorei-me em estar,
presencialmente, com elas, tocando-as, sentindo-as,
vivendo-as, intensamente, verdadeiramente
Faltando 7 para as 7, com o sol na testa,
reluzindo meu semblante impávido e jubiloso,
atravessei a estrada de ferro e o riacho raso,
caminhei a campina e escalei a escarpa vegetada,
chegando ao fim da minha inquietação,
ao clímax do meu êxtase, ao platô,
onde não havia limítrofes – cerca, gradil ou portão
Descobri que nada condizia com o que se dizia
As majestosas árvores, frutíferas,
nascidas da femina terra ocre,
não eram estéreis, floravam
E as casas, salubres, não continham covas, túmulos,
criptas, masmorras... nem seres cobertos de carbúnculos
Nas duas casas, há tanto e tanto tempo desabitadas,
nasceram, viveram e, naturalmente,
morreram entes felizes, que primavam por
iluminar, aerar, respirar, transpirar, festejar, conviver,
amar, desejar, afagar, cultivar, cativar, construir, comover
e se voltar para si... ao cosmos
Os espaços de poucos septos, o partido arquitetônico,
os diversos elementos compositivos, o imaginário,
os signos, o imaterial, os entrelaces estilísticos,
a permeabilidade com a natureza, os hábitos... revelavam,
em cada morada, indivíduos plenos e transcendentes
Considerada a simetria em tão magnífica obra,
descrevo as duas descrevendo uma.

O átrio heptagonal sob a gigantesca clarabóia
As sacadas, as mansardas, as rosáceas de sete pétalas
A escada de sete lanços, cada qual com sete degraus,
inteiramente de ônix verde, inclusive balaustradas e corrimãos
Os inúmeros artefactos integrados de ferro singularmente forjado,
com formas de motivos místicos – celestes e marinhos
Muitos e generosos vãos envidraçados de portas e janelas
Vinhos na adega e candelabros de sete chamas na capela
Vasos e lustres de alabastro
Pinturas em tela retratando primorosamente
a floresta de baobás de Madagascar
Telhado de Telhas cerâmicas de Marselha
Lambrequins nos beirais
Platibandas e frontões circundados por cornijas
Tímpanos repletos de arabescos
No alto das quinas, nos vértices,
marcando a grande verticalidade da construção
e a vasta dimensão da planta quadrangular,
os acrotérios de pedra lavrada,
servindo como pouso de criaturas-aves,
semelhantes a grifos, com asas erguidas,
de grande envergadura, rostro avantajado,
esculpidas no mármore negro,
cortado em delineações surreais,
num contundente expressionismo
de belíssima ascenção gótica
A cantaria, às vezes lisa, outras sutilmente decorada,
também conformava cercaduras, cunhais,
cachorros, soleiras, bocéis, vergas e umbrais
As paredes eram brancas ou beges ou azuis
ou recobertas pelos coloridos das composições zoomórficas
e tramas e geometrias caleidoscópicas da arte azulejar
Assim como como os chãos, revestidos de ladrilhos
que compunham mosaicos de desenhos mágicos. 
Sobrenaturalmente, as casas eram limpas,
conservadas, preservadas, sem rachaduras ou trincas,
não esmaecidas, não invadidas, não depredadas
Como que vivas, mesmo que em letargia
E defesas, como se algo (ou alguém?)
não as quisesse mortas... erradicadas
Elas se mantinham intactas, prontas, como se... esperassem
Como se, a qualquer momento, seus amados habitantes regressassem.

... A maior descoberta ainda estava por vir.

Dispostos em dois planos,
quartos, salas, galerias, varandas e colunas corolíticas
rodeavam todo o pátio mourisco, ajardinado,
com sete palmeiras reais e aberto aos céus
Cheio de gangorras, balanços, escorregos,
carrocéis, triciclos, bambolês, bonecas
e tantos outros brinquedos espalhados
No centro havia um enorme espelho d’água translúcido
de formato irregular... orgânico
Surpreendentemente, extenso e largo corredor subterrâneo
de teto abobadado interligava as duas vivendas,
iluminado, no âmbito do pavilhão lateral,
por dois grupamentos paralelos de sete lamparinas
fixadas no piso de calcário amarelo brilhante,
e por sete domus semi-esféricos no intervalo
de sete braças ensolaradas que, aparentemente,
à superfície, separavam as duas casas, os dois enigmas
As fontes límpidas também se comunicavam,
compartilhando as mesmas capilaridades aquíferas
na rocha abaixo do solo, provindas das nascentes
escondidas no topo das longínquas altitudes.    

Não... não eram duas
Era uma casa apenas
Onde nasceram, viveram e morreram...
... onde habitaram duas famílias irmãs.
Hoje, eu, velho e são, sábio não, aos 77,
sou amargo, infeliz, por saber
que a cidadezinha, a estação ferroviária,
os trilhos, a maria-fumaça, o riozinho,
o prado, a encosta, o planalto,
as árvores viçosas, as casas... a Casa...
... só existiram durante os sete anos
da minha juventude em que passei
imerso num... ... ... ... ... ... ... profundo coma.

(Fábio Torres).

Fonte: Google Imagens.

sábado, 22 de outubro de 2011

Poema DEPOIS DO PESADELO... O SONHO

Fonte: Google Imagens.
A vermelhidão inunda minhas escleróticas
Os olhos, submersos, afligem-se,
pulsam desesperadamente, ao ponto de saltar
Rubis aprisionados no trevor das fossas marinhas,
em fuga dos veios miocênicos das montanhas abissais;
prístina rocha, viva e ardente, fazendo-os fossilizar.
E as veias inflam, dobram-se, aturdidas,
deformando a pele, que, embrutecida,
escama-se, como num ser reptílico
Meu sangue flui assustadoramente ávido,
demasiadamente oxigenado e veloz,
aos espasmos, sob golpes de aríete,
debatendo-se, acuado pelos débeis limites do corpo,
querendo jorrar, jorrar... abundante e incontinente
Oceano que foi represado enquanto plácido
dormia, indolente, aos sons do resfolegar
e do canto dos cetáceos, embalado nos tentáculos
bonançosos e fragrantes da viração;
mas que, açoitado ferozmente
pela inclemente tempestade, pelo tenebroso furacão,
ferido e revolto invadiu as altitudes,
devastou o Mundo, aplainou a Terra,
privando-a de todos os fortes e torres,
devassando cada poro e paredão das cidades defesas
Das Marianas ao Kilimanjaro.

Domingo... verão
Arraigada no alto da falésia
defronte ao mar,
à praia deserta, aos coqueiros,
ao infinito azul,
a vivenda dos meus ancestrais;
linda, idílica, telúrica,
a transpirar memórias
A casa onde nasci e vivi,
envolvido no casulo de carinho
dos meus amadíssimos pais,
continuamente renascendo,
suspenso nas atmosferas
as mais sensórias
E em seu jardim fantástico, imenso,
orgânico, de múltiplas cores e formas,
monarcas e vice-reis festejam,
em música e dança,
a tão bela manhã de dezembro,
impregnada de aromas,
de cenas e de sol
A família de juçaras,
mães e filhas,
levada pela brisa mansa,
movimenta-se aos sussurros
lenta e divagante
Cânticos, cantigas, cantatas:
nas pitangueiras em flor,
mangueiras de manga-maçã,
laranjeiras, cajueiros, goiabeiras
e pés de jabuticaba e de fruta-pão,
ninhos de pintassilgos, trinta-réis,
canários e alegrinhos
e os vermelhos saltitantes
da crista das cravinas
Perto do caramanchão,
a cauda do pavão,
a língua do camaleão
e as madeixas bailantes
das casuarinas,
enquanto esperanças e escaravelhos
exploram os ramos e buquês
das celestinas
No ozone-céu-reluzente,
a revoada de patos e maguaris
às piúvas, ilhas, matas e mangues
do Brejo dos Curimatãs
e do Rio das Ravinas
Os caminhos sinuosos
de chão batido, cascalho e conchas,
ladeados por bromélias,
hibiscos, jasmins vapor e natal
e árvores da felicidade
levam ao lago dos kois, tartarugas,
vitórias-régias e aldrovandas,
e a recantos recônditos... secretos
cercados por palmeiras com fuste
revestido de jibóias,
craibeiras floridas,
troncos lodosos e copas frondosas
de especimens centenários,
buganvilles, arbustos desconhecidos,
ricas-floras, casas-ricas, taiobas
e outras plantas de folhas graúdas
e pedras grandes e musgosas
hospedando orquídeas:
o esconderijo de crianças
e da Penelope obscura
e outros bichos arredios
Dos mirantes, por entre as folhagens,
à sombra das castanholas e gameleiras,
vê-se, na maré baixa, os maçaricos,
uns ainda magrinhos,
outros já bem gordinhos,
banqueteando-se de crustáceos e poliquetas,
na areia fértil a correr, parar,
correr, parar, voar e repetir,
tão engraçados e ligeirinhos.
Vejo ainda:
as preguiças nas embaúbas,
banana-prata, banana-ouro,
as comidas e delícias feitas por Xica Prega,
a algazarra de guinés, piriquitos e galinhas,
os gatos dormindo no alpendre,
o galo dos ventos no cume do telhado,
os aquários coloridos de bettas,
as iguanas escalando as trepadeiras
e as brincadeiras dos galgos,
sabujos e labradores.
A lua e as estrelas do vitral lilás
da grande sala de estar
são transpassadas pelo clarão do dia
Nas janelas entreabertas
de vidro translúcido,
as cortinas amarelas de bristol,
recolhidas, deixam os quartos
absorverem o doce perfume das rosas
E pétalas orvalhadas na madrugada clara
sopradas pela aura verde   
pousam suavemente na cama
onde, sobre lençóis da Caxemira,
ainda dorme minha mãe tão bela
Serena, sem dor, sonhando, sonhando...:
Vega na constelação de Lyra.

(Fábio Torres).


Fonte: Google Imagens.

sábado, 24 de setembro de 2011

Poema IGREJA DO CARMO DE OLINDA

Detalhe da Igreja de Santo Antônio do Antigo Convento de
Nossa Senhora do Carmo, Olinda (PE) / Foto: Fábio Torres.

Junto ao mar
dos mais lindos verdes e azuis
Perto do mar,
o mais belo de se olhar
No alto da colina,
colina que é só dela
A igreja revelha
Igreja que revela
coisas que não sei, bem, contar.
Em Olinda vi a cruz
Do alto, da sineira dessa igreja
que se revela, que se faz restaurar
Onde, num sonho, casava-me
com a mulher que desejo
Mas ela, por saber que é tão bela,
tão amada, tortura-me,
fazendo-me tanto esperar.
Como esperou a igreja
Pra se fazer revelar
Pra se fazer restaurar
Igreja do calcário e arenito
Hoje ainda escura,
mas viva, quase iluminada
Igreja de Santo Antônio
do demolido convento
de Nossa Senhora do Carmo
O primeiro
Erguido nos primeiros
tempos urbanos
Dos jardins do Monte Carmelo
à colina da Villa de Olinda,
a primeira morada
dos frades carmelitanos.
Do alto, da torre, por baixo do sino,
vi a cidade dos outros lugares,
das outras colinas,
das muitas esquinas
A cidade dos quatro cantos
Das íngremes, tortas e retortas
ladeiras de pedra
Dos medievos recantos
Do muxarabi
Do farol, não no fim do mundo,
bem perto daqui
Dos casarios ancestrais
Do Horto Del Rey
Dos coqueiros,
belas árvores sombreiras
e verdejantes quintais
Do homem da meia-noite,
da mulher do dia,
do menino da tarde,
do artista que sorria
Vi o observatório astronômico
Vi o cometa Olinda
Vi a cidade do sol
A cidade do céu
O céu que mergulha no mar
Vi a cidade de tantas outras igrejas
Do Monte, da Sé
Do Rosário, do Amparo
Da Boa Hora, do Bonfim
Do Desterro, da Conceição
Da Graça, dos Milagres...
Misericórdia, minha amada
Toma esta rosa, esta flor roubada.
Quem se faz esperar,
se faz desejar
Junto ao mar,
o mar que é dela
No alto da colina,
a colina só pra mim,
só pra ela.

(Fábio Torres, agosto de 2011).

Vista de Olinda (PE) por baixo do sino da Igreja de Santo Antônio do Antigo
Convento de Nossa Senhora do Carmo / Foto: Fábio Torres.