domingo, 13 de novembro de 2011

Poema PRAIA DO NORTE

Fonte: Google Imagens.
Praia do vento
Vento da areia
Areia do tempo
Tempo das dunas
Dunas da praia.

Praia do som
Som do sino
Sino da igreja
Igreja do povo
Povo da praia.

Praia do canto
Canto dos índios
Índios da aldeia
Aldeia do cajueiro
Cajueiro da praia.

Praia do espelho
Espelho do mar
Mar das estrelas
Estrelas da noite
Noite da praia.

Praia da lua
Lua das marés
Marés dos peixes
Peixes das águas
Águas da praia.

Praia das conchas
Conchas das pérolas
Pérolas da luz
Luz do farol
Farol da praia.

Praia do sol
Sol da manhã
Manhã do azul
Azul do céu
Céu da praia.

Praia do coqueiro
Coqueiro das folhas
Folhas das sombras
Sombras das pedras
Pedras da praia.

Praia da baleia
Baleia da dança
Dança do rabo
Rabo da sereia
Sereia da praia.

Praia do pouso
Pouso da fome
Fome dos bicos
Bicos das aves
Aves da praia.

Praia do verde
Verda da mata
Mata dos bichos
Bichos das cores
Cores da praia.

Praia da vida
Vida dos homens
Homens dos barcos
Barcos das velas
Velas da praia.

Praia do norte
Norte da bússola
Bússola de ouro
Ouro dos sonhos
Sonhos da praia.

(Fábio Torres).

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Poema PROFANO

Fonte: Google Imagens.
Cena 1 (A Fêmea):
Os outros no casamento daquele
que ela amou e perdeu
Sozinha na casa, a mulher de tão pouca idade
Já de olhar-se nua no espelho
Acariciando sua exuberante puberdade
Descobrir os segredos do seu corpo
e seus poderes de aloucar os homens.

Cena 2 (O Vento):
Numa cama armada sobre
o silêncio de maio,
ela de costas pro teto,
de peitos pro colchão
Espalhada sem roupa nem coberta
Só imagens e recordações
Bebidos três cálices cheios da fada verde,
sente na pele morena
a massagem do vento cálido
que invade o leito através da trama
de fasquias de um muxarabi:
toca-lhe nos pés, desliza até as coxas
e lambe-lhe as nádegas,
possuindo toda a égua
Como um garanhão que ela amou e perdeu
... E o sono lhe pega.

Cena 3 (O Sonho):
Lua cheia, vento maio
As tetas grandes e duras
como melões ainda verdes
Ela sonha com delícias
Membros musculosos e suados
lhe arrebentando de prazer
Vida! Muita vida... aos jorros
Sonho quente, noite nova.

Cena 4 (O Inesperado):
Um estardalhaço de asas espedaça
a transparência do transe
em que a lascívia delira
Ela pensou que era um anjo
a invadir seu quarto
... O estase toma conta dos seus humores!
– “Sossega, fêmea
Fujo daquele que pensaste eu ser
Os sinos de uma catedral me encolerizam
A inhaca do carrasco me enoja
E sua proximidade me apavora
À sombra de uma cruz ele caça
minha liberdade
Mas tu, deusa... conforta-me
Tua beleza, inebriante,
cega o fio dos meus reflexos,
domina cada poro do meu couro
Abre-te a mim
Aqui há fome e alimento
Despeja o teu hálito no meu
Cobiçada rainha escrava
a todas as minhas sedentas vontades
Quero beijar... lamber... chupar... morder...
... todas as partes do teu corpo
De tanto prazer, fazer-te gemer, sussurrar...
... berrar palavras e sons obscenos
Quero acompanhar a sensualidade
dos teus movimentos
Penetrar-te as entranhas,
de todas as maneiras imagináveis
Entranhar-me inteiro em você inteira
Lambuzar-te inteira... oh, eleita”.

Cena 5 (A Cópula):
E aquele belo ser opulento fez-lhe de refúgio
Servindo-a com a longa e ávida língua viscosa
e com o imenso falo em riste
Servindo-se da gula adolescente e tão louca
Da boca inundada de saliva
à profunda garganta já tão rouca
Dos lábios vermelhos da vagina lisa
até atritar-se com as paredes ventrais
E das bandas e rego arregaçados da enorme bunda
ao fundo das mucosas retais.
Atingido o ápice das vigorosas estocadas
e dos urros e agudos gritos primais
Após horas a fio do roçar das dilatadas veias rubro-azuladas
na fina tez dourada até então imaculada,
esguicha o esperma, grosso e assustadoramente farto,
o sêmen branco e ardente,
a lavar as ancas e dorso da cavala alimentada,
desmaiada sobre a cama desfeita
e molhada de mil secreções
Só então sossegando o monstruoso mangalho,
agora flácido, pendurado e gotejante
entre as pernas do saciado mandrago.

Cena 6 (A Despedida):
Levado pelas asas de sombrear,
o alado príncipe viajor
as trevas da madrugada buscou
Deixando naquele lugar
estilhaços de vidro e mulher
Sua pressa assustou-lhe
Aaah... Mas as loucuras que juntos fizeram
paralisaram sua mente num encanto
Tanto que, extasiada, nem percebeu
a chegada dos tontos alcoolizados. 

Cena 7 (O Juramento):
Ao deus de fogo prometeu
Até a morte ao seu encontro galopar
A espera em noite calma
Calma... aberta...
... de janela aberta.

Seus poderes de enlouquecer machos humanos
Demônios!?... Ela nunca havia imaginado.

(Fábio Torres).

sábado, 5 de novembro de 2011

Poema MARTIN LUTHER KING

Martin Luther King / Fonte: Google Imagens.
Um tiro no espaço
A bíblia no chão
Um corpo sem vida
A multidão se amortalha
E a alma?
É de um Rei
Vida longa a Martin Luther King Jr.
Vida longa ao Rei.

... E sei que um dia
seremos reis também
Um dia a minha... a tua alma...
... será a de um rei além
Muito além de cidades e jazidas
Reis de amor... liberdade...
Tal qual o Grande Rei Martin
Não reis esquecidos em necrópoles
esquecidas sob os desertos esquecidos.

E quando o fim da tarde chegar
A luz do ocaso brilhar
Morrer de amor
Depois de tanto viver...
... de amor.

(Fábio Torres).

Poema A CASA

Fonte: Google Imagens.
Durante 7 anos
De segunda a sábado
De manhã, às 7
Eu no Km 7,
A 7 mil léguas do mar
Na estação do trem
que apitava e saía,
pontualmente,
às sete e sete
Curioso horário
Estranhas casas
Não, não eram sete
Eram duas
Lado a lado
Exatamente iguais
... Ou será que não?
Caberiam, então,
ao jogo dos 7 erros?

Ao longo de sete anos da minha vida,
a máquina preta
esfumaça o ar da manhã fria
E soando o maravilhoso apito,
parte na cadência dos sons
da mecânica orquestral
Puxando os vagões lotados
de gente, de tristeza, de alegria
A locomotiva sobre os trilhos
da linha ocidental, a primeira ferrovia,
desce a serra, leva-nos ao longe,
aos sonhos, à vida, avançando lenta
E da janela, da cortina de vapor,
eu, atento, as via
Na elevação após o rio magro e a planície,
distanciadas da cidade pobre e modorrenta,
entre as árvores antigas,
contemporâneas suas,
semeadas no século dezenove,
por volta de 1860.

Na janela, no vapor, meu rosto,
meus sentidos, parados, fascinados,
fixados naquela abstrata cenografia
Até a escuridão do túnel
apagá-la da minha visão
Mas não dos meus pensamentos verneanos
Seriam duas casas de outro mundo?
Quem ali nasceu? Quem ali nascera?
Quem ali viveu? Quem ali vivera?
Quem ali morreu? Quem ali morrera?
Havia algum herdeiro... ou herdeira?
Nas conversas de trem, procurei saber
Com os velhos, com os sãos, com os sábios
Mas ninguém sabia
Somente que eram assombradas:
antros de seres horrendos, nauseabundos,
de corpos amorfos tomados pelo antraz
e dos espíritos notívagos e bestiais
das famílias destruídas pelos flagelos
de doenças degenerativas e terminais,
pelas discórdias, sofrimento, infelicidade, agonia.

Para eles, os simplistas, os simplórios,
a história das casas era vazia,
como vazias eram elas, há décadas,
fechadas, sem luz, esquecidas, sufocadas
Era o medo do desconhecido,
o pavor que assolava o povo daquele lugarejo
Não raros foram os domingos
em que procurei decifrá-las
Sonhando, absorto, viajando
nos sentimentos e enlevos
que aquelas duas imensas casas
só em mim despertavam... estimulavam
Eu sozinho, irrequieto, resoluto,
percorrendo a gare deserta,
buscando os melhores pontos de observação,
com a luneta de bronze do meu avô materno
nas mãos, aos olhos, à mente
Através das lentes arranhadas e embaçadas,
o remoto explorador, apesar dos caules e folhagens
e da bruma que normalmente as envolvia,
pacientemente, persistentemente,
tal qual Paracelso e sua alquimia,
esquadrinava os invólucros murais,
desvelando o fantástico da arquitetura
que magistralmente as definia.

... E, certa vez, finalmente,
no último dos sete anos,
no feriado do dia 7,
numa manhã quente, arvorei-me em estar,
presencialmente, com elas, tocando-as, sentindo-as,
vivendo-as, intensamente, verdadeiramente
Faltando 7 para as 7, com o sol na testa,
reluzindo meu semblante impávido e jubiloso,
atravessei a estrada de ferro e o riacho raso,
caminhei a campina e escalei a escarpa vegetada,
chegando ao fim da minha inquietação,
ao clímax do meu êxtase, ao platô,
onde não havia limítrofes – cerca, gradil ou portão
Descobri que nada condizia com o que se dizia
As majestosas árvores, frutíferas,
nascidas da femina terra ocre,
não eram estéreis, floravam
E as casas, salubres, não continham covas, túmulos,
criptas, masmorras... nem seres cobertos de carbúnculos
Nas duas casas, há tanto e tanto tempo desabitadas,
nasceram, viveram e, naturalmente,
morreram entes felizes, que primavam por
iluminar, aerar, respirar, transpirar, festejar, conviver,
amar, desejar, afagar, cultivar, cativar, construir, comover
e se voltar para si... ao cosmos
Os espaços de poucos septos, o partido arquitetônico,
os diversos elementos compositivos, o imaginário,
os signos, o imaterial, os entrelaces estilísticos,
a permeabilidade com a natureza, os hábitos... revelavam,
em cada morada, indivíduos plenos e transcendentes
Considerada a simetria em tão magnífica obra,
descrevo as duas descrevendo uma.

O átrio heptagonal sob a gigantesca clarabóia
As sacadas, as mansardas, as rosáceas de sete pétalas
A escada de sete lanços, cada qual com sete degraus,
inteiramente de ônix verde, inclusive balaustradas e corrimãos
Os inúmeros artefactos integrados de ferro singularmente forjado,
com formas de motivos místicos – celestes e marinhos
Muitos e generosos vãos envidraçados de portas e janelas
Vinhos na adega e candelabros de sete chamas na capela
Vasos e lustres de alabastro
Pinturas em tela retratando primorosamente
a floresta de baobás de Madagascar
Telhado de Telhas cerâmicas de Marselha
Lambrequins nos beirais
Platibandas e frontões circundados por cornijas
Tímpanos repletos de arabescos
No alto das quinas, nos vértices,
marcando a grande verticalidade da construção
e a vasta dimensão da planta quadrangular,
os acrotérios de pedra lavrada,
servindo como pouso de criaturas-aves,
semelhantes a grifos, com asas erguidas,
de grande envergadura, rostro avantajado,
esculpidas no mármore negro,
cortado em delineações surreais,
num contundente expressionismo
de belíssima ascenção gótica
A cantaria, às vezes lisa, outras sutilmente decorada,
também conformava cercaduras, cunhais,
cachorros, soleiras, bocéis, vergas e umbrais
As paredes eram brancas ou beges ou azuis
ou recobertas pelos coloridos das composições zoomórficas
e tramas e geometrias caleidoscópicas da arte azulejar
Assim como como os chãos, revestidos de ladrilhos
que compunham mosaicos de desenhos mágicos. 
Sobrenaturalmente, as casas eram limpas,
conservadas, preservadas, sem rachaduras ou trincas,
não esmaecidas, não invadidas, não depredadas
Como que vivas, mesmo que em letargia
E defesas, como se algo (ou alguém?)
não as quisesse mortas... erradicadas
Elas se mantinham intactas, prontas, como se... esperassem
Como se, a qualquer momento, seus amados habitantes regressassem.

... A maior descoberta ainda estava por vir.

Dispostos em dois planos,
quartos, salas, galerias, varandas e colunas corolíticas
rodeavam todo o pátio mourisco, ajardinado,
com sete palmeiras reais e aberto aos céus
Cheio de gangorras, balanços, escorregos,
carrocéis, triciclos, bambolês, bonecas
e tantos outros brinquedos espalhados
No centro havia um enorme espelho d’água translúcido
de formato irregular... orgânico
Surpreendentemente, extenso e largo corredor subterrâneo
de teto abobadado interligava as duas vivendas,
iluminado, no âmbito do pavilhão lateral,
por dois grupamentos paralelos de sete lamparinas
fixadas no piso de calcário amarelo brilhante,
e por sete domus semi-esféricos no intervalo
de sete braças ensolaradas que, aparentemente,
à superfície, separavam as duas casas, os dois enigmas
As fontes límpidas também se comunicavam,
compartilhando as mesmas capilaridades aquíferas
na rocha abaixo do solo, provindas das nascentes
escondidas no topo das longínquas altitudes.    

Não... não eram duas
Era uma casa apenas
Onde nasceram, viveram e morreram...
... onde habitaram duas famílias irmãs.
Hoje, eu, velho e são, sábio não, aos 77,
sou amargo, infeliz, por saber
que a cidadezinha, a estação ferroviária,
os trilhos, a maria-fumaça, o riozinho,
o prado, a encosta, o planalto,
as árvores viçosas, as casas... a Casa...
... só existiram durante os sete anos
da minha juventude em que passei
imerso num... ... ... ... ... ... ... profundo coma.

(Fábio Torres).

Fonte: Google Imagens.